Os 6 pecados do greenwashing

Por Rogério Ruschel *

Greenwashing é a apresentação inexistente ou inadequada de benefícios ambientais ou socioambientais apresentados por empresas, serviços ou produtos. Recente estudo realizado com 1.758 promessas encontradas nas embalagens de 1.018 produtos disponíveis no mercado dos Estados Unidos, revelou os seis pecados do apelo greenwashing.

Veja quais são eles:

Pecado dos Malefícios “esquecidos”
O principal pecado encontrado na pesquisa, estando em 56% dos produtos pesquisados, se caracteriza pelo fato do produto destacar apenas um benefício ambiental e “esquecer” os outros. Exemplos: Meu produto é reciclável (mas é extremamente gastador de energia e água para ser produzido); meu produto é feito sem teste em animais (mas sua decomposição natural pode prejudicar a cadeia alimentar natural).

Pecado da Falta de Provas
Representando 26% das promessas encontradas, é utilizado por produtos que anunciam benefícios ambientais sem comprovação científica ou certificação respeitável. Nesta categoria são encontrados xampus que não são testados em animais, produtos de papel com uso de material reciclado, lâmpadas com maior eficiência energética – todos sem comprovação dos argumentos disponível ao consumidor.

Pecado da Promessa Vaga
Entre as promessas vagas – encontradas em 11% dos produtos pesquisados – estão produtos “não-tóxicos” (e sabemos que qualquer produto em excesso pode intoxicar uma pessoa); produtos “livre de químicos” (o que é impossivel, porque todos os insumos de todos os produtos têm elementos químicos em sua composição); “100% natural” (urânio, arsênico e outros venenos também são “naturais”); “ambientalmente produzido”, “verde”, “conscientemente ecológico”, todas promessas 100% vagas. E estamos falando de embalagens – imagine aqui no Brasil as promessas vagas que vimos diariamente na propaganda…

Pecado da Irrelevância
Pecado encontrado em 4% dos produtos pesquisados, se caracteriza por destacar um benefício que pode ser verdadeiro, mas não é relevante. A mais irrelevante das promessas foi a relacionada ao CFC, banido do mercado norte-americano nos anos 70: inseticidas, lubrificantes, espumas de barba, limpadores de janelas e desifetantes, por exemplo, todos livres de CFC. A promessa é irrelevante porque se não fossem livres de CFC estes produtos não teriam licença para estar à venda no mercado…

Pecado da Mentira
Encontrado em 1% dos produtos, é simplesmente uma mentira deslavada.

Pecado dos Dois Demônios
Encontrado em 1% dos produtos, são benefícios verdadeiros, mas aplicados em produtos cuja categoria inteira tem sua existência questionada, como cigarros orgânicos, inseticidas ou herbicidas orgânicos.


E o greenwashing tupiniquim?

Este tipo de pesquisa de análise de promessas de sustentabilidade socioambiental nas embalagens dos produtos infelizmente ainda não foi feita no Brasil. Na verdade sequer temos condições de avaliar o greenwashing na propaganda comercial ou na cobertura jornalística – territórios ainda sem metodologias para fazê-lo.

Como um exercício de foro íntimo podemos fazer algumas reflexões:

• Quando será que o CONAR, que retirou a publicidade da Petrobras do ar porque se dizia uma “empresa sustentável” mas não tomava medidas para cumprir o acordo do PROCONVE, vai adotar legislação sobre o greenwashing em embalagens de produtos?

• Você conhece alguma promessa publicitária “vazia” feita por grande anunciante que fala mais do que faz – digamos assim, um grande clássico do greenwashing publicitário?

• Você considera éticamente correto uma empresa investir “x” em um projeto socioambiental e investir até 3 vezes mais do que este valor para comunicar este fato? Isto pode ser considerado greenwashing?

• Os critérios de conceituação e definição de greenwashing devem ser uma iniciativa do Estado (regulamentação oficial), do Mercado (regulamentação da iniciativa privada) ou da Sociedade (regulamentação pela preferência de compra)?


* Rogerio Ruschel é diretor da Ruschel & Associados Marketing Ecológico e editor da revista eletrônica Business do Bem. Saiba mais sobre este assunto em http://www.ruscheleassociados.com.br/revista/ed8/interface.html

(Envolverde/Ruschel & Associados)


Se vai consumir, que seja com responsabilidade

Fundação O Boticário de Proteção à Natureza
O consumo é um pressuposto básico para a vida cotidiana, mas a forma exacerbada como vem sendo feito coloca em risco os processos de renovação dos recursos naturais. Por isso, a mudança de postura para um consumo consciente é urgente.

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Tucano-do-bico-verde (Ramphastos dicolorus). Toda ação do dia-a-dia tem peso sobre o meio ambiente.

A pressão sobre o patrimônio natural começa a esgotar os recursos naturais e interferir nos processos de renovação da natureza. O consumo exagerado da sociedade moderna é o principal motor dessa pressão. Atualmente se consome cerca de 25% a mais de recursos do que a natureza consegue repor de acordo com o relatório Planeta Vivo 2006 da organização não-governamental WWF. Para se ter idéia, segundo outra pesquisa da WWF, esta de 2008, se todas as classes sociais adotassem o estilo de vida da elite brasileira, seriam necessários três planetas para sustentar o consumo.

Preocupado com essa situação, o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces) lançou em junho o Catálogo Sustentável, um portal em que os visitantes encontram informações de produtos, serviços e empresas sustentáveis. “Criamos um catálogo virtual em um espaço aberto e amplo para reunir e permitir o acesso a produtos com características de sustentabilidade. Nosso objetivo não é, de forma alguma, estimular o consumismo, mas a procura por produtos feitos de forma sustentável”, afirma a diretora executiva do GVces, Rachel Biderman.

Para fazer parte do catálogo, o produto deve atender a pelo menos um dos critérios adotados pela equipe como eficiência energética, toxicidade, biodegradabilidade entre outros. No entanto, essa “peneira” deve ficar mais fina no futuro. “Neste momento inicial, queremos premiar quem deu o primeiro passo. Com o tempo, ficaremos mais rigorosos. De repente, atender a apenas ao critério de eficiência energética não será suficiente, também precisará ser feito com material reciclado, mas o mercado não dispõe desses produtos atualmente”, explica Biderman.

Outro objetivo da iniciativa é divulgar informações referentes à sustentabilidade empresarial, de forma a estimular que a demanda influencie a construção de um novo modelo de produção. Desde os cidadãos consumidores até as grandes empresas e órgãos públicos compradores estão dentro do público alvo. “Queremos que o catálogo também sirva como uma ferramenta de educação. Caso precise realmente consumir, que procure por produtos com menos impactos”, explica a diretora executiva do GVces.

O que precisa é consciência
Iniciativas como o catálogo sustentável são importantes, mas ainda falta compreensão da população sobre o seu impacto na natureza. “Falta nas pessoas consciência sobre o que estão fazendo. O ato da compra é desvinculado da consciência sobre o impacto da compra sobre o ambiente”, afirma a analista de projetos ambientais da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, Maísa Guapyassú.

O ecólogo ambientalista e professor da Universidade Regional de Blumenau (SC), Lauro Bacca, afirma que as pessoas estão perdendo a referência devido ao aumento absurdo do consumo. “Comemora-se muito que conseguimos reciclar cerca de 90% das latinhas de refrigerante no país, mas se esquece que os outros 10% que acabam no ambiente representam aproximadamente um bilhão e meio de latas só no Brasil. Há 20 anos, esse número era zero, agora, a quantidade é imensa”, explica.

O professor acredita que a questão ambiental cresceu bastante nos últimos anos, porém a devastação ambiental aumentou muito mais. “Os carros de hoje lançam uma quantidade muito menor de poluentes no ar do que os de 20 anos atrás, mas o número de automóveis nas ruas anula esse avanço. Vivemos uma era de ilusão ambiental, esses avanços são necessários, mas temos que acabar com a crença de que só porque inventamos uma tecnologia avançada ambientalmente as coisas estão às mil maravilhas”, comenta Bacca.

O afastamento do homem moderno da natureza é outro dos fatores que contribuem para o desinteresse das pessoas em ter mais cuidado com suas atitudes de consumo, segundo Guapyassú. “Essa desconexão faz com não tenham consciência de suas ações. Acham que a tecnologia vai resolver tudo independentemente do custo”, afirma.

Consuma mais, consuma muito
O processo de indução ao consumo feito pelos diversos meios de comunicação também é responsável pelo problema, pois entra em conflito com a necessidade de ter mais cuidado na hora de comprar. “Esse modelo de sociedade de consumo criou a utopia de que o Brasil é um país inesgotável”, afirma Oscar Fergutz, analista de projetos da Fundação Avina. Guapyassú divide a mesma opinião, “queremos que as pessoas tenham comportamento ambientalmente correto, mas ao mesmo tempo elas são bombardeadas com propaganda e se valoriza a compra de produtos desnecessários. Estamos em um mundo em que as pessoas são valorizadas pelo consumo”, afirma.

Bacca não acredita que alguém diga que o meio ambiente não é importante, mas na hora de tomar medidas positivas para a natureza, mesmo as mais simples, é difícil encontrar pessoas dispostas a isso. Para ele, o governo também tem sua parcela de influência, pois não cria ações efetivas para estimular essa mudança. “O consumo consciente ainda não atingiu a grande massa e as autoridades são responsáveis em grande parte por isso. Pouco se divulga, pouco se impõem. Os governantes gostam muito de dividir o ônus com a população, nunca o bônus”, comenta.

“Se essa lógica se perpetuar, estaremos sempre pressionando o meio ambiente, pressionando na produção com a retirada dos recursos, e depois na volta, na hora do descarte. Cria uma pressão sobre o planeta tão grande, que ele não consegue se recuperar”, explica Biderman.

Tomando a frente
Oscar Fergutz é um desses consumidores que sempre procuram levar em consideração o impacto do produto e de suas ações sobre o meio ambiente. Sempre observa a quantidade de embalagens, a eficiência energética, a distância do transporte da mercadoria na hora de adquirir alguma coisa. Para ele, a responsabilidade social não pode ser só das empresas e dos governos, mas de todos que fazem parte da sociedade. “Devemos estar conscientes o tempo inteiro. Tudo o que fazemos consome recursos do planeta”, afirma.

É este tipo de postura que o planeta precisa urgentemente de seus mais numerosos habitantes. “Nosso planeta Titanic está afundando e as pessoas não estão percebendo, continuam na proa do navio fazendo festa”, conclui o professor Bacca.

Para saber mais sobre consumo consciente, visite os sites do GVces, do Instituto Akatu e do Instituto de Defesa do Consumidor.

Dos 299 parques, reservas e outras áreas protegidas federais, 58% não têm sequer um fiscal.

 

Em um rompante de transparência de fazer inveja à ex-ministra Marina Silva, o ministro de Meio Ambinte Carlos Minc, revelou nesta terça-feira o tamanho do abacaxi que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMbio terá que descascar para colocar o mínimo de infra-estrutura e gente nas áreas protegidas do País. “Algo não vai bem no reino das unidades de conservação. O quadro é esse, não vamos esconder”, disse Minc em coletiva de imprensa.

Dos 299 parques nacionais, reservas extrativistas, refúgios de vida silvestre e outras áreas protegidas federais, 173 (58%) não têm sequer um fiscal e 82 (28%) não possuem nenhum servidor. Além disso, só 73 (24%) das 299 já têm planos de manejo para garantir um uso mais adequado.

Tamanho descaso com áreas criadas pelo próprio governo deu asas à ilegalidade. Dos 11.224 Km2 de desflorestamento registrados no ano passado, cerca de 2,5 mil Km2 (22%) aconteceram dentro de áreas protegidas e terras indígenas. De forma geral, o desmatamento cresce mais dentro do que fora das unidades de conservação. Até porque do lado de foram pouca coisa sobrou em alguns estados amazônicos, como Rondônia e Mato Grosso.

 

Medidas

Frente ao descalabro das áreas protegidas federais, o Ministério do Meio Ambiente – MMA promete uma série de medidas. Quase tudo para este mês. Segundo Carlos Minc, a idéia é “proteger a biodiversidade e as populações tradicionais e elevar a oferta de madeira legalizada”.

 O pacote inclui destacar um gestor para cada unidade de conservação, concurso público para preencher 185 vagas no ICMBio e 215 no Ibama, contratação de 180 novos fiscais entre agosto e novembro e de mil brigadistas para atuar até o fim do ano, principalmente no período de estiagem. Cada brigadista ganhará cerca de R$ 600,00 mensais. Amenizar a situação dos 63 parques nacionais é a prioridade.

O ICMBio tem hoje 1.635 servidores. Boa parte veio remanejada do Ibama. A terceira portaria de transferência de servidores será publicada nos próximos dias. Com isso, serão quase dois mil trabalhadores carregados para o órgão criado na gestão Marina Silva. “O cobertor não ficará curto para o Ibama”, garantiu Minc.

Sustentação financeira

A grande dúvida frente a tantos anúncios é de onde saíra o dinheiro para fechar algumas feridas da gestão ambiental federal. Vale lembrar que a maioria das reservas não é demarcada e não possui infra-estrutura para manter em seus limites gestores e fiscais. O MMA aposta nos recursos da compensação ambiental. Segundo Minc, mais de R$ 400 milhões poderiam engrossar a gestão das áreas protegidas se essa torneira for mesmo aberta.

Dados obtidos pelo O Eco revelam que apenas R$ 3 milhões estavam previstos de início para as reservas federais de proteção integral na Amazônia em 2008.

Já Silvana Medeiros, presidente-interina do ICMBio, comentou que o governo está investindo na “modernização administrativa” para evitar falta de combustível e outros materiais nas áreas protegidas. Segundo ela, foi contratada uma gestora para abastecer veículos que operam dentro das reservas e foi fornecido um “cartão” corporativo para cada unidade, gerenciado pela sede em Brasília. Também se pensa na cobrança eletrônica de ingressos, reduzindo fraudes. “Não faltará mais combustível em áreas protegidas”, disse.

 

Turismo

A visitação de parques nacionais e outras áreas também pode alimentar os cofres das unidades de conservação. Mas dados do governo mostram que as áreas protegidas federais recebem apenas 3,5 milhões de visitantes por ano. Complicando tudo, nove entre dez turistas preferem os bem estruturados parques nacionais do Iguaçu (PR) e da Tijuca (RJ). “A melhor defesa é o bom uso. Por isso queremos melhorar a visitação, ampliando a receita e a fiscalização desses locais”, avisou Minc.

MMA e Ministério do Turismo já tiraram do forno um plano para esquentar o turismo em 25 unidades de conservação. O ministro também discutirá com a Eletrobrás e com a Itaipu Binacional um modelo para reverter parte das taxas de energia de novos empreendimentos para a manutenção de áreas protegidas. “O custo deve ser dividido entre consumidores e geradores, mas o modelo precisa ser mais bem discutido”, avisou o ministro.

 

Sem planos

Toda reserva ecológica deveria funcionar com um plano de manejo. O documento é uma espécie de manual de uso para se evitar a degradação excessiva de cada área. Mas a realidade das reservas federais é bem diferente, ainda mais se tratando das 55 reservas extrativistas. Apenas duas têm plano de manejo. Isso compromete sua preservação e a vida das populações que lá vivem. Sem planos, nem financiamentos públicos são liberados.

Conforme o ministro Minc, a falta de regularização joga extrativistas na miséria, fazendo com que abram as portas das reservas à ilicitudes de toda a natureza. “Muitos extrativistas na miséria vendem madeira ilegal ou deixam gado entrar nessas áreas. A miséria os converte em predadores. Vamos apreender boi pirata dentro das reservas”, disse.

A produção dos 53 planos de manejo que faltam para as reservas extrativistas será acelerada com a ajuda de ONGs e instituições de ensino. Entidades como essas concorrerão ao trabalho por meio de um edital que será lançado a partir de agosto. Há poucos dias, o governo também lançou uma política de preços mínimos para produtos do extrativismo.

Outros 12 planos de manejo são elaborados para florestas nacionais, alvo principal das concessões de matas para manejo. Se os planos governistas se concretizarem, até 4 milhões de hectares serão alvo de manejo até o fim de 2009. A capacidade de produção anual seria de 6 milhões de metros cúbicos de madeira. Cada concessão tem prazo inicial de 30 anos.

Barraginhas

Vanessa Fagundes

Técnica de captação de água garante subsistência e gera renda para pequeno produtor



As barraginhas funcionam como represas que abastecem os lençóis freáticos

Água correndo é sinal de fartura, de vida. Sabe bem disso quem convive diariamente com a seca, como as comunidades do Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais. As estiagens prolongadas destroem lavouras, contribuem para o aumento da pobreza e obrigam os agricultores a deixarem a região em busca de oportunidades. Mas essa história pode mudar. Uma nova tecnologia, inspirada em técnicas milenares de captação de água da chuva, está contribuindo para mudar a paisagem local.

O engenheiro agrônomo Luciano Cordoval, do Centro de Pesquisa de Milho e Sorgo da Embrapa, localizado em Sete Lagoas (MG), provou que pequenos represamentos instalados em propriedades rurais ajudavam não só a acumular a água da chuva, mas também a conter a força das enxurradas e evitar erosões. As primeiras experiências começaram há mais de vinte anos e, hoje, as barraginhas conquistaram não apenas o norte e o nordeste de Minas Gerais, mas também estados como o Ceará e o Piauí.

Como lembra Cordoval, tudo começou com uma viagem a Israel, em 1976. De um ônibus de turismo, o pesquisador avistou pontos verdes no meio do deserto. O “milagre” era produzido pelas redes de captação de água, solução que permitia ao país conviver com os longos períodos sem chuvas. A idéia ficou guardada e, anos mais tarde, já trabalhando na Embrapa, Cordoval viu a chance de testar a experiência no semi-árido mineiro.

O engenheiro, que até então trabalhava com sistemas de irrigação, buscava em uma fazenda de Janaúba, norte de Minas, uma forma de captar a água da chuva. Ao mesmo tempo, desejava evitar a destruição do solo que, pela reduzida taxa de infiltração, provocava o surgimento de enxurradas que degradavam e empobreciam a terra, além de carregar detritos responsáveis pelo assoreamento de rios e córregos. Após uma tempestade, ele observou que, em alguns pontos ao longo da enxurrada, a água ficava represada devido à própria configuração do terreno. Nesses locais, formava-se uma lama fértil, que permitia o crescimento de vegetação.


Luciano Cordoval, engenheiro agrônomo da Embrapa e idealizador das barraginhas

“Construímos, então, barramentos nesses locais onde a água da chuva se concentrava. A proposta era diminuir a força da água, evitando a erosão, e criar uma forma de reabastecer os lençóis freáticos, o que ajudaria as plantações a sobreviverem durante períodos de seca”, conta Cordoval. A aposta mostrou-se certa. Como experimento, a equipe construiu trinta barraginhas num terreno de Sete Lagoas. Os resultados obtidos comprovaram as hipóteses e permitiram o aperfeiçoamento da técnica. Até hoje, o local serve de vitrine para o projeto.

Expansão
As barraginhas são construídas no formato de meia lua, com 15 metros de diâmetro por 1,5 a 2 metros de profundidade. Basta um trator para dar conta do trabalho, que dura no máximo duas horas. Quando chove, os barramentos se enchem de água, que vai infiltrando aos poucos na terra. Em um único dia de chuva, é possível acumular a água equivalente à de 10 a 15 caminhões-pipa.

Geralmente, a água demora de 10 a 15 dias para desaparecer. Ao ser absorvida pelo solo, são criadas “franjas úmidas”, faixas de terra com elevado índice de umidade e fertilidade (ver figura). São nesses espaços que os agricultores cultivam hortaliças e plantas frutíferas. Os lençóis abastecidos permitem a sobrevivência da lavoura mesmo em épocas de seca, garantindo o sustento da família.

Sob os barramentos, formam-se espécies de lagos subterrâneos que se comunicam com os de outras barraginhas. Com isso, é possível construir cacimbas e cisternas que fornecem água limpa para consumo humano e animal, diminuindo ou eliminando a necessidade do caminhão-pipa. “Em alguns lugares, a água chega a brotar do solo”, conta Cordoval. Ele destaca casos de alguns pequenos produtores que haviam abandonado a região para trabalhar em outros estados. “Quando voltam para visitar a família e encontram essa fartura, entendem que é possível gerar renda ali mesmo.


Para divulgar o trabalho, o engenheiro viaja por todo o Brasil e também recebe grupos interessados em aprender a técnica. “É a fase do namoro. Eles vêm aqui, são apresentados às barraginhas já construídas e escutam sobre os benefícios. Se compram a idéia, voltam para casa e constroem os barramentos. Mas é preciso se envolver com o projeto e ter o compromisso de replicar o conhecimento”, diz. Quando uma região ou município termina a qüinquagésima barraginha, Cordoval e sua equipe vão até o local para um Dia de Campo festivo, com a presença de toda a comunidade.

Zenaido Lima da Fonseca, secretário municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável de Formiga, cidade do sul de Minas Gerais, é um dos entusiastas do projeto. A cidade já possui 250 barraginhas construídas com recursos da Prefeitura e, em fevereiro, foram liberadas mais 75 horas/máquina para esse fim. Para ele, as mudanças provocadas pelas barraginhas são visíveis. “Nos locais onde o lençol freático é mais superficial, a água aflora do solo”, afirma.

Ao segurar a força das águas da chuva, as barraginhas contribuem, também, para a recuperação de áreas com muita erosão. “Os produtores conseguiram ampliar as áreas cultivadas para locais que, até então, eram destruídos pelas enxurradas”, destaca. “É interessante notar, também, como o projeto contagia as pessoas, desde os pequenos agricultores até o próprio ‘barrageiro’, motorista do trator que constrói as represas.” Segundo o secretário, as barraginhas são, hoje, prio-ridade para a Prefeitura e uma nova lici-tação já foi iniciada, para contratação de mais 400 horas/máquina.

Os pequenos barramentos se multiplicaram rapidamente, em grande parte devido à facilidade de construí-los. Luciano Cordoval calcula que já existam 80 mil barraginhas, beneficiando mais de 30 mil famílias. A maior parte delas está concentrada em Minas Novas, no norte do Estado – quase 2.500. Mas a experiência já ultrapassou os limites de Minas Gerais, alcançando também Goiás e Distrito Federal. Além disso, foram assinados convênios com o Ceará e o Piauí. Neste último, a previsão é que a zona rural de 12 municípios seja contemplada com 3.600 barraginhas. Em todas as cidades por onde passam, os técnicos da Embrapa treinam os agricultores na construção de duas barragens. O resto, eles fazem sozinhos, com a ajuda das prefeituras.

Lago de Múltiplo Uso

Por todos os benefícios sociais e econômicos gerados, o projeto “Barraginhas para captação de enxurradas” acumula prêmios. A Embrapa Milho e Sorgo venceu a etapa regional do Prêmio Finep 2006, categoria Inovação Social. Em 2003, o engenheiro representou o Brasil em uma conferência das Nações Unidas em Kyoto, no Japão. O projeto também está no banco de tecnologias sociais da Fundação Banco do Brasil (FBB) e da Rede de Tecnologias Sociais (RTS).

Entre os apoiadores estão Furnas, Petrobras e a própria FBB, que já investiu mais de R$2 milhões para reaplicação e disseminação da metodologia em outras partes do País. Outro parceiro importante é a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de MG (Emater) que, desde 2002, auxilia no treinamento dos agricultores.

Paralelamente ao projeto Barraginhas, Luciano Cordoval coordena uma outra iniciativa que também chama atenção pelo impacto social. É o Lago de Múltiplo Uso, tecnologia desenvolvida para armazenamento de água e irrigação. O projeto teve origem na década de 1980, com a criação do Plano de Águas da Embrapa Milho e Sorgo, cujo objetivo era disponibilizar água para uso simultâneo nas diversas áreas de pesquisa da entidade.

Como explica Cordoval, apesar de abundante no local, a água encontrava-se em córregos marginais, distantes dos pontos de consumo. Foram construídos, assim, 32 lagos dispersos, próximos às áreas de cultivo, que funcionariam como reservatórios. Na parte mais alta, os pesquisadores instalaram lagos mestres. Com a ajuda da gravidade, a água era distribuída a lagos menores que abasteciam os campos experimentais, resultando em economia aproximada de 75% nos gastos com energia e diesel.


Horta comunitária de Sete Lagoas, abastecida por um lago artificial

“Os solos dos locais de construção dos lagos são, em sua maioria, porosos – essa é uma característica do próprio solo do cerrado. Por isso, foi necessário desenvolver técnicas adequadas de impermeabilização”, lembra o engenheiro agrônomo. No primeiro teste, o buraco foi coberto com barro de cerâmica, na espessura de 30 centímetros. Apesar de conter a água, os custos inviabilizavam essa alternativa. Em 1990, experimentou-se revestir os lagos com lonas de plástico comum, fáceis de adquirir. Para protegê-la contra raios solares, peixes e animais, a lona recebeu uma camada de 25 centímetros de terra. A proposta funcionou e, nos anos seguintes, a tecnologia foi sendo aperfeiçoada e difundida para a sociedade por meio de palestras, dias de campo e treinamentos.

Além da economia de energia proporcionada, a matéria-prima comum e o baixo custo são alguns dos atrativos do lago artificial. Ele pode ser usado, também, para tratamento de dejetos líquidos poluentes. Indústrias ligadas à suinocultura, frigoríficos e laticínios, entre outras, produzem grande quantidade de efluentes que, algumas vezes, são despejados em rios e lagos, contaminando o lençol freático e prejudicando populações ribeirinhas. O lago é utilizado para acondicionar e tratar estes dejetos para posterior liberação e reaproveitamento da água em lavouras.

O lago também é utilizado como reservatório em fazendas, como substituto de caixas d’água e para abastecimento de granjas, bebedouros e irrigação de pomares. Outra aplicação que vem crescendo é na piscicultura com fins comerciais ou de lazer, como em pesque-pague. Em Sete Lagoas, o Lago de Múltiplo Uso é utilizado, já há algum tempo, para abastecimento da horta comunitária. Fruto de uma parceria entre a Prefeitura, a Emater e a Embrapa Milho e Sorgo, a horta possui três quilômetros de extensão e beneficia 200 famílias de aposentados que, por meio dela, complementam a renda e melhoram sua alimentação.

A horta foi implantada em uma avenida reta, com ondulações. No topo de cada ondulação, foram construídos lagos lonados, abastecidos pelo poço artesiano do bairro e pela água da chuva. Por gravidade, a água é transferida para caixas d’água. Com isso, sempre há água limpa e em abundância para os canteiros. “Lago cheio significa sono tranqüilo”, resume Raimundo Correia de Amorim. Aos 65 anos, ele utiliza o lucro da venda de hortaliças e legumes para pagar os estudos do filho. “A horta para mim é diversão, ajuda até na minha saúde”, diz.

Assim como o projeto Barraginhas, o Lago de Múltiplo Uso vem sendo premiado pelo seu potencial transformador. Em 2004, ele recebeu o prêmio Super Ecologia, promovido pela revista “Superinteressante”, da Editora Abril, na categoria água/governo. No ano seguinte, foi reconhecido com o Prêmio de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil, na categoria recursos hídricos.

Os recursos obtidos com os prêmios serão utilizados na próxima etapa do projeto, que é a expansão para seis municípios de Minas Gerais, um do Piauí e um do Ceará. A idéia de Cordoval é unir as duas tecnologias: as barraginhas captam a água e abastecem os lençóis freáticos, permitindo o cultivo em qualquer época do ano. E os lagos com lona, além de armazenarem água para consumo e irrigação, permitem diversificar as atividades geradoras de renda.

Nos locais por onde passa apresentando as tecnologias, Luciano Cordoval vai conseguindo multiplicadores. Hoje, são mais de 12 mil pessoas formadas em palestras e treinamentos, muitas das quais trocam experiências em grupos de discussão na internet. O engenheiro também disponibiliza uma cartilha on line que explica o projeto em detalhes. Dessa forma, espera contaminar com seu entusiasmo mais e mais pessoas por todo o Brasil.

Teoria da evolução: 150 anos

Primeira apresentação pública dos textos de Darwin e Wallace

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
 
Há 150 anos vinha a público uma idéia que revolucionou os estudos biológicos e modificou radicalmente a visão que o ser humano tinha de si mesmo. Em 1º de julho de 1858, na Sociedade Lineana de Londres, um grupo de naturalistas ouviu a leitura dos textos de autoria do galês Alfred Russel Wallace e do inglês Charles Robert Darwin, nos quais se lançavam os princípios da teoria da evolução.

Na verdade, só no ano seguinte, quando Darwin publicou o livro "Origem das Espécies", a teoria evolucionista - que também se tornou conhecida como darwinismo - produziu todo seu impacto. Entre suas implicações, encontrava-se o questionamento da atuação divina na criação das espécies. A idéia de criação era substituída pela de evolução, regida pelo princípio da seleção natural. Nascia uma polêmica que ainda não se encontra encerrada: evolucionistas e criacionistas continuam a se enfrentar - com maior ou menos afinco - até os dias de hoje.

No entanto, o episódio da leitura dos textos de Darwin e Wallace em 1858 é importante não somente por antecipar a revolução evolucionista, mas também por revelar um aspecto profundamente humano da produção do conhecimento científico. De certo modo, a leitura aconteceu naquela data para garantir a Darwin - que há 20 anos elaborava o evolucionismo - o papel de protagonista na formulação dessa teoria.

Descoberta de Wallace

Em fevereiro de 1858, durante uma jornada de pesquisa nas ilhas Molucas, Indonésia, Wallace descobriu a seleção natural e passou suas idéias para o papel. A seguir, resolveu enviar o manuscrito de sua descoberta para Darwin, naturalista a quem admirava e com quem já havia trocado correspondência. Juntamente com esse texto, seguia uma carta pessoal em que ele pedia ao colega uma avaliação do mérito de sua teoria, bem como o encaminhamento da tese ao geólogo Charles Lyell, um proeminente cientista da época.

Para Darwin, tratava-se de uma surpresa nada agradável. Wallace lhe apresentava uma teoria praticamente idêntica àquela em que o próprio Darwin vinha trabalhando há duas décadas, com grande sigilo, pois estava certo do potencial de polêmica e até de escândalo que ela trazia em si embutida. Desse modo, Darwin passava pelo pior pesadelo de um cientista, a de ter perdido a precedência no descobrimento. Afinal, para a ciência, não importa que Darwin estivesse trabalhando durante 20 anos: o crédito da descoberta seria de quem a publicasse primeiro.

"Toda a minha originalidade será esmagada", escreveu Darwin numa carta a seu amigo Charles Lyell. Para evitar que isso acontecesse, Lyell e o botânico Joseph Hooker - também amigo de Darwin, além de homem influente no mundo científico - propuseram que os trabalhos fossem apresentados simultaneamente à Sociedade Lineana, o mais importante centro de estudos de história natural da Grã-Bretanha, como aconteceu a 1º de julho.

Originalidade darwiniana

Vale a pena registrar que os dois estudiosos não puderam comparecer ao prédio da Sociedade, em Burlington House, Piccadilly, no centro de Londres. Darwin acabara de perder seu filho mais novo, que morrera de escarlatina dois dias antes. Já Wallace continuava suas pesquisas, agora na Nova Guiné, e até então não tinha sequer recebido uma resposta à carta que enviara a Darwin. Isso só aconteceria alguns cerca de três meses mais tarde, período que uma correspondência levava para chegar da capital do Império britânico à Oceania.

É importante ressaltar que não faltam documentos ou provas de que Darwin fez a sua descoberta antes de receber as informações de Wallace. Tudo, por incrível que pareça, não passou de uma imensa coincidência ("Nunca vi coincidência tão impressionante", disse Darwin na carta que enviou a Lyell). Portando-se como legítimo cavalheiro britânico, Darwin dividiu as honras da descoberta com Wallace que, por sua vez, lhe cedeu a primazia na publicação de "Origem das Espécies".

A história, porém, não foi tão gentil com Alfred Russel Wallace: poucos sabem quem ele é hoje em dia, ao passo que o nome de Darwin se tornou célebre como o de um dos maiores cientistas de todos os tempos. 2009 será comemorado como "ano de Darwin" para lembrar o bicentenário de nascimento do naturalista, assim como os 150 anos de publicação de sua obra fundamental.
Biólogos buscam na natureza receita do etanol de celulose
O Estado de S. Paulo - Herton Escobar

Cientistas vasculham plantas e animais à procura das enzimas necessárias para tornar a tecnologia viável.

 Quando se formou em biologia, 20 anos atrás, Alexandre Rosado não imaginava que um dia daria entrevistas sobre o futuro energético do planeta. Naquela época, o aquecimento global era quase um mito, o preço do petróleo não chegava nem perto dos US$ 100 o barril e o programa de álcool brasileiro parecia sem futuro. Agora, a história é outra.

A "redescoberta" do etanol e a busca por novas fontes de energia renovável a partir de plantas está transformando completamente o cenário científico da indústria de combustíveis. O líquido energético que antes precisava ser extraído de rochas profundas agora é plantado na superfície, colhido, e plantado de novo. Em vez de brocas, sonares e capacetes, os especialistas agora usam pinças, microscópios e jalecos brancos. As plataformas de petróleo viraram colheitadeiras. A geologia cedeu lugar à biologia. E Alexandre Rosado ganhou uma nova função.

Enquanto a Petrobrás anuncia a descoberta de reservas petrolíferas milhares de metros abaixo da superfície, ele e outros biólogos ao redor do mundo vasculham o intestino de peixes, vacas e cupins à procura de micróbios capazes de digerir celulose e produzir os biocombustíveis do futuro. "É um momento muito interessante, a área está super quente", diz Rosado, professor há dez anos do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Ecologia Microbiana Molecular.

Mais especificamente, os cientistas estão à caça de enzimas com ação celulolítica - ou seja, capazes de quebrar as moléculas longas e duras de celulose em moléculas menores e mais "digeríveis" (do ponto de vista de uma levedura), que possam ser aproveitadas nos processos clássicos de fermentação para produção de etanol. E não há lugar melhor para isso do que o intestino de animais herbívoros, fundos de lagos e outros ambientes exóticos onde matéria vegetal é naturalmente degradada.

A falta dessas enzimas, chamadas celulases, é um dos principais entraves à produção de etanol de celulose. "As enzimas que temos hoje são muito ineficientes e caras", diz Paulo Arruda, biólogo molecular da empresa Alellyx, de Campinas. "Precisamos digerir mais bagaço com menos enzima. Esse é o gargalo."

Os especialistas em produzir celulases na natureza são microrganismos. Na UFRJ, os cientistas estudam o arsenal enzimático de micróbios que vivem no intestino de peixes cascudos da mata atlântica. Dentre as centenas de bactérias identificadas, duas novas espécies já foram isoladas e caracterizadas. "São tipos tão diferentes que talvez sejam até gêneros novos", diz Rosado, que orienta a pesquisa em parceria com a cientista Elba Bon, do Instituto de Química. O trabalho compõe a tese de mestrado do aluno André Castro.

Outro projeto do laboratório é o estudo de comunidades microbianas da água de bromélias - aquelas "piscininhas" que se formam na base das folhas e estão recheadas com microrganismos. Cerca de 500 espécies já foram isoladas e 80%, segundo Rosado, têm ação celulolítica. "A motivação inicial era apenas estudar a biodiversidade microbiana desses ambientes. Quando vimos o potencial que isso tinha para os biocombustíveis, porém, iniciamos a busca por enzimas também", conta o cientista.

Ele exalta o potencial biotecnológico da biodiversidade brasileira: "Temos reservatórios enormes de genes, enzimas e microrganismos que não são explorados", diz.

CUPINS

Nos EUA, um dos líderes nessa área é o microbiólogo Jared Leadbetter, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), que trabalha em parceria com a empresa Verenium. Em 2007, ele e vários cientistas da empresa publicaram na revista Nature Biotechnology uma análise de genes e proteínas de bactérias do intestino de cupins. Os insetos foram coletados na Costa Rica, com autorização do governo e participação de cientistas locais, que também assinam o estudo.

A escolha faz sentido: se o objetivo é digerir biomassa, ninguém sabe fazer isso melhor do que um cupim. O intestino do inseto está recheado de bactérias e outros micróbios que secretam celulases. Os cientistas querem isolar essas enzimas e testá-las na produção de etanol. E depois, quem sabe, isolar os genes responsáveis pelas enzimas e transferi-los para outros microrganismos que possam ser incorporados ao processo produtivo.

"Não há dúvida de que a solução para os biocombustíveis está nos micróbios", disse Leadbetter ao Estado. "É neles que vamos encontrar o software que precisamos para fazer o etanol de celulose funcionar."

Entender como funciona esse software genético, porém, não será fácil. O mais provável, diz Leadbetter, é que milhares de genes e enzimas participem do processo. "Todos os resultados indicam que se trata de sistema muito complexo", diz. A "receita mágica", portanto, deverá ser um coquetel de enzimas selecionadas de vários organismos e misturadas sob medida para cada tipo de biomassa.

Jeff Pantukhoff/Reuters
PROTESTO VERDE
Ambientalistas formam o desenho de uma baleia e da palavra santuário no Parque O'Higgins, em Santiago, que abriga encontro da Comissão Internacional de Caça às Baleias e reúne 80 países; o Chile declarou banida a caça em suas águas

Pai de todos

Bernardo Camara

Mal esticou as pernas em solo carioca e Dom João já tinha um bocado de compromissos para cumprir, no tão falado ano de 1808. Entre burburinhos oficiais sobre abertura de portos, criação da imprensa e instalação de um banco nacional, o então príncipe regente de Portugal tratou de arranjar um tempo na conturbada agenda para tratar de outro assunto, que não estava na pauta da corte: encontrar um canto para abrigar e adaptar as mudas e sementes asiáticas e européias trazidas na bagagem.

Foi assim, por uma vontade despretensiosa de aclimatar plantas estrangeiras, que a zona sul do Rio de Janeiro concebeu o Jardim de Aclimação, numa cidade em que as atividades rurais ainda dividiam espaço com as praias. Hoje, 200 anos após receber os primeiros exemplares de espécies como canela e noz-moscada, o espaço ganhou pompa na estrutura e no nome. Dom João ia gostar de ver como seu modesto horto cresceu e se transformou no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Completando o bicentenário no próximo dia 13 de junho, o pai dos jardins botânicos brasileiros está se preparando para a festa. Seus 137 hectares – dos quais 55 constituem o arboreto – adentram 2008 revitalizados, e com uma lista robusta de projetos estruturados ao longo dos anos. “Além da Escola Nacional de Botânica Tropical e da biblioteca, temos hoje programas em muitas áreas, como Mata Atlântica, Zona Costeira, taxonomia, conservação. E ainda nossa coleção de herbário, xiloteca, coleção viva”, vai enumerando Liszt Vieira, presidente do instituto.

Por trás das conhecidas palmeiras-imperiais que chamam atenção na rua Jardim Botânico – no bairro homônimo –, muita coisa passa despercebida pelas 400 mil pessoas que pisam no parque a cada ano. “Hoje, trabalhamos com uma visão multidimensional, com cinco vertentes: científica, educacional, ambiental, cultural e social”, define Vieira, explicando que o objetivo é criar um diálogo entre a conservação do meio ambiente e cada uma dessas áreas.

Para tirar as atividades da sombra das árvores, a idéia é incentivar cada vez mais as pessoas a conhecerem com detalhes tudo o que é oferecido ali dentro. “Pretendemos fazer uma exposição sobre o próprio Jardim Botânico, como uma vitrine. As pessoas não sabem que aqui tem pesquisa, escola, centro cultural. Queremos mostrar o que é o Jardim Botânico para o visitante”.

Como gente grande

Enquanto Vieira fala, de sua mesa, sobre os vôos do JB, lá fora o entra e sai não cessa. E não são apenas famílias, fotógrafos ou casais de namorados que aparecem para respirar ar puro. As idas e vindas incluem pesquisadores internacionais que sabem muito bem das potencialidades do instituto. “Existe uma relação de parceria muito freqüente com importantes jardins botânicos do mundo, como o de Londres, Nova York, Paris”, relata o coordenador de pesquisas, Fábio Scarano.

O especialista explica que o intercâmbio entre os países é impulsionado por dois motivos principais: a existência de um acervo riquíssimo, que não se limita em nada à flora brasileira, e a tecnologia, que atende com folga à demanda científica. “Estamos muito bem servidos em termos estruturais”, diz, enquanto se prepara para receber nos próximos dias uma delegação chinesa que vem ver de perto os trabalhos botânicos.

A mais recente conquista atraída pela boa forma do aniversariante é a criação do Centro de Conservação da Flora Brasileira. Com dinheiro do Banco Mundial (Bird), o centro vai dar um generoso empurrão na identificação de espécies nacionais ameaçadas. O objetivo é chegar a 2010 com 60% destas espécies conservadas, em bancos de germoplasma, DNA ou coleções vivas.

“Vamos liderar essa ação em âmbito nacional, e pelo conhecimento, vamos gerar subsídios para tirar estas espécies da lista de ameaçadas”, anseia Scarano. Para iniciar os trabalhos, só falta o projeto driblar as burocracias internas do Bird. “Estamos enfrentando galhardamente essa selva burocrática, e vamos criar o centro ainda esse ano”, assegura Liszt Vieira,. “A função científica aqui dentro está se desenvolvendo muito”.

Troca de figurinhas

Se lá fora as pesquisas do JB do Rio fazem eco, no Brasil o instituto completa dois séculos como patriarca dos 34 jardins botânicos estruturados. Seu vasto banco de dados e a experiência em estudos de vegetais deram base para que os posteriores ganhassem corpo. “Pelo papel histórico que desempenhou e desempenha e sua relevância científica, o JB do Rio continua sendo a referência onde todo mundo vai buscar informações”, atesta Dácio Roberto Matheus, presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos (RBJB) e diretor do JB de São Paulo, que completa oito décadas este ano.

Roberto Matheus conta que na época que o instituto paulista engatinhava, o apoio do colega pioneiro, que já chegava aos seus 120 anos, foi fundamental. “A relação é histórica. Essa troca de material botânico, de informações que acontece hoje é tradicional. O JB do Rio é como o velho ancião, que sempre se tem uma reverência”, completa, sem esquecer de dizer que atualmente os integrantes da RBJB já caminham com as próprias pernas. “Do ponto de vista científico, já tem vários que se equiparam. Superar, nenhum”.

Com o Museu Emílio Goeldi, no Pará, a experiência foi semelhante. Ainda que tenha surgido para lá dos anos 1860 e hoje seja referência em estudos da Amazônia, o instituto paraense também se alimentou em ninho carioca. “O JB do Rio de Janeiro formou muitos pesquisadores do Museu Goeldi. São instituições que têm afinidades, o intercâmbio foi constante ao longo do tempo”, diz Nelson Sanjad, coordenador de comunicação e extensão do museu.

Já crescidos e em pé de igualdade, hoje os institutos de pesquisas botânicas brasileiros não deixam de trocar figurinhas. Pelo contrário. “Com o passar do tempo, cada um foi se estruturando e apresentando suas importâncias, suas especialidades. A gente se organiza através da rede e há um intercâmbio intenso entre todos os jardins. Isso ocorre com troca de informações, consultas a bancos de dados, experiências em educação ambiental, conservação”, lista o presidente da RBJB.

No passado

Somente no fim do século 19, quando as plantas de dom João VI já haviam passado pela administração de treze diretores, é que o Jardim Botânico começou a ganhar seu atual caráter científico, com João Barbosa Rodrigues à frente. Ao assumir o cargo, em 1890, o pesquisador resolveu botar ordem na casa, pois considerava “tudo muito agradável à vista , mas cientificamente em estado deplorável”, contam arquivos da época.

Foi ele o responsável por ordenar os exemplares em famílias botânicas e fincar placas de identificação de cada espécie. “Para ser um Jardim Botânico não basta ter um aglomerado de plantas. É preciso haver pesquisa científica, educação ambiental. O Barbosa Rodrigues é o marco. A partir dele foram criados instrumentos para que o local se tornasse de fato um instituto de pesquisa”, recorda o atual presidente.

No futuro

Menina dos olhos do Ministério do Meio Ambiente, hoje o Jardim Botânico do Rio de Janeiro é considerado “o órgão de pesquisas do ministério”. Fábio Scarano tem consciência do prestígio, e afirma que daqui para frente os mais de 40 pesquisadores que coordena deverão ter um foco mais abrangente nos estudos: “O salto que precisamos dar é direcionar ações num âmbito mais nacional”, conclui, explicando que a ênfase hoje ainda é muito em cima dos biomas e ecossistemas próximos.

Liszt Vieira confirma a intenção de buscar novos horizontes. Além de elaborar um projeto que visa a continuar incentivando o crescimento de outros jardins botânicos pelo Brasil, o JB carioca não pretende ficar estagnado em suas atividades. “Ainda há muita coisa a ser feita. Na área de pesquisa muitos projetos podem ser desenvolvidos. Na escola podemos abrir muitos cursos de extensão em área de gestão de meio ambiente. E vamos expandir o espaço do Centro Cultural. A idéia é ciência e cultura conversarem e buscar coisas em comum”.

Os planos, no entanto, esbarram no velho problema do orçamento. Mesmo com o aumento de R$ 4,5 milhões de 2003 para cá, os R$ 9 milhões separados para 2008 não pagam tantas aspirações. “Esse dinheiro vai para questões administrativas, gastos imediatos. Não consegue bancar os grandes projetos”, lamenta Vieira. Segundo ele, a vitalidade do instituto não seria possível sem o apoio da iniciativa privada e de recursos adquiridos por emendas parlamentares. Estas são as duas fontes que essencialmente movem os trabalhos.

Mesmo com o empecilho financeiro, não é todo dia que se completam 200 anos. Portanto, a programação para celebrar a data é extensa, e entre os convidados está o presidente Lula, que deve meter a mão na terra para plantar uma palmeira-imperial. Um livro institucional com ilustrações históricas e a cronologia do antigo Jardim de Aclimação também será lançado. E um antigo prédio vai ser reinaugurado para abrigar o primeiro Museu do Meio Ambiente do mundo.

Ainda sem patrocínio, a exposição principal vai abordar o meio ambiente desde os primórdios do planeta, passando pelo povoamento dos humanos, os problemas que chegam com a urbanização e a crise atual, com direito a mudanças climáticas e aquecimento global. Mas Vieira adianta que a mostra não terá nada de batida: “Vai ser um pouco high-tech, com tecnologia de ponta. Não valeria a pena fazer algo apenas com objetos colocados um do lado do outro. Esse é o nosso desafio”, diz, dando a tônica do velho, porém inovador instituto: “Idéia não nos falta”.

 

Semente de 2.000 anos germina e vira planta

Da BBC Brasil
Uma semente com cerca de 2.000 anos encontrada no deserto da Judéia foi plantada por cientistas israelenses e germinou, segundo artigo publicado na revista especializada Science nesta sexta-feira.

Isso a tornaria a semente mais antiga do mundo a germinar de que se tem conhecimento.

A semente de tâmara foi encontrada em escavações em 1963, na antiga fortaleza do rei Herodes, em Masada, perto do Mar Morto.

Na ocasião, os cientistas encontraram um grupo de sementes, que mantiveram em uma sala em temperatura ambiente com a intenção de estudá-las mais a fundo.

Divulgação
A planta, germinada a partir de semente de 2.000 anos encontrada na Judéia
A região era famosa por suas tâmaras com propriedades medicinais, e há 2.000 anos as frutas eram o principal produto de exportação da região hoje ocupada por Israel.

Mas séculos de guerras, invasões e secas prejudicaram o cultivo das tâmaras, e já na época das Cruzadas, há 800 anos, as vastas florestas de tamareiras da região haviam desaparecido.

Recentemente, uma equipe de botânicos, agrônomos e biológos liderados por Sarah Sallon, do Centro de Pesquisa de Medicina Natural L. Borick, analisaram as sementes e decidiram plantar algumas, como parte de um projeto para recriar plantas medicinais que haviam existido na região.

Carbono
Já houve várias experiências em que sementes "antigas" germinaram, afirma a Science, mas poucas conseguiram verificar a idade das sementes de maneira cientificamente aceitável.

A equipe de Sallon usou o processo de datação radioativa por carbono - que mede a idade de objetos com base no declínio da taxa de seus isótopos de carbono - para determinar a idade de duas das sementes, que teriam entre 2.110 e 1.995 anos.

Como o processo danifica as sementes, os cientistas plantaram uma terceira semente. Esta semente germinou depois de oito semanas, transformando-se numa planta semelhante às atuais tamareiras.

A única diferença eram pequenos pontos brancos nas primeiras folhas da planta, provavelmente causados pela falta de clorofila, atribuída à deficiência de nutrientes essenciais durante os primeiros estágios da germinação.

Depois de permitir que a planta - apelidada de Matusalém em homenagem ao personagem mais velho da Bíblia - crescesse por 15 meses, os cientistas a transferiram para um vaso maior e recolheram vestígios da semente das raízes, para realizar o processo de datação, que comprovou as suspeitas dos cientistas, de que ela teria perto de 2.000 anos.

Os cientistas acreditam que as condições no deserto, seco e quente, tenham contribuído para a preservação das características originais da semente.

"A habilidade de sementes permanecerem viáveis por longos períodos de tempo é importante na preservação dos recursos genéticos da planta", afirma Sallon.

A cientista e sua equipe estão agora conduzindo análises na planta para saber se ela representa uma espécie extinta. Se for, Sallon pretende reintroduzi-la em Israel, o que permitiria a cientistas cruzar a antiga tamareira com espécies mais modernas, na esperança de criar plantas mais resistentes a infecções e secas, por exemplo.

A semente mais antiga conhecida a ser germinada, antes desta, foi a de uma flor de lótus, que tinha 1.300 anos.

Software tem a melhor opção para gerar eletricidade do lixo urbano

A Companhia Energética de Minas Gerais - Cemig, em parceria com a Universidade Federal de Itajubá - Unifei, desenvolve um projeto de Pesquisa e Desenvolvimento - P&D que estuda a melhor opção tecnológica para o aproveitamento do biogás para a geração de energia elétrica. Nesta quinta-feira (05/06), foi apresentado um software interativo que tira dúvidas, de acordo com a viabilidade técnica econômica e financeira do empreendimento, no município onde ele estiver localizado. A apresentação desse software faz parte da programação da Semana de Inovação Tecnológica, que acontece no edifício-sede da Cemig e que prossegue até amanhã (06/06).

O projeto de P&D analisa desde as matérias-primas, a preparação do lixo urbano, seu uso e a sua deposição no aterro sanitário. O software se propõe a encontrar a melhor opção para geração de energia elétrica, seja usando o biogás ou usinas que incineram o lixo e que, com o calor, geram energia elétrica ou, ainda, a opção de queimar o gás em motores a gás ou em microturbinas.

O biogás possui grande concentração de metano, que é um gás produzido pela decomposição de matéria orgânica em aterros sanitários, podendo ser usado como combustível na produção de energia elétrica ou térmica. A queima do metano a 1.000°C gera energia térmica que movimenta os motores, transformando-a, então, em energia elétrica. Quando não aproveitado, o metano perde-se na atmosfera e pode causar sérios impactos ambientais.

A disposição inadequada do lixo também causa poluição do solo, das águas e do ar, além de propiciar proliferação de vetores de doenças. Cada município ou um conjunto de municípios deve dar uma solução para os resíduos e, em contrapartida, recebe uma remuneração especial que incentiva esta prática (ICMS Ecológico).

Para o técnico de normalização Virgílio Almeida Medeiros, da Cemig, a busca por soluções deve passar pelo esforço integrado de prefeituras, órgãos federais e estaduais e a sociedade.  Ele acrescenta que o lixo urbano possui um potencial que está sendo desprezado, pois, se fosse utilizado para a obtenção de energia elétrica, estaria atendendo tanto aos anseios da Cemig como mais uma fonte de energia, como também às necessidades socioambientais, devido à comercialização de certificados de redução de emissões no mercado de créditos de carbono, previstos pelo Protocolo de Quioto.

Se todo o lixo produzido em Minas Gerais, 70 mil toneladas por semana, fosse utilizado para a geração de energia elétrica, a capacidade geradora de Minas Gerais seria ampliada em aproximadamente 2.000 MW, ou um terço da capacidade da Cemig, que é de cerca de 6.000 MW.

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE
José Eli da Veiga
 
Erraram feio os que fizeram pouco da iniciativa do presidente francês Nicolas Sarkozy de solicitar à dupla Stiglitz-Sen uma revisão dos "limites do PIB como critério de medida do desempenho econômico e do bem-estar". Ou melhor, da "mensuração do desempenho econômico e do progresso social", conforme acabou ficando o título oficial da força-tarefa que está sendo chamada de "Comissão Stiglitz". Após longos cinco meses de suspense, três fatos mostram que o processo está muito bem encaminhado.
 
O primeiro é o próprio time. A comissão já se legitimou por contar com 25 outros craques de imenso prestígio, e com fecunda diversidade de visões e especialidades. Daí a importância de serem apresentados, mesmo que de forma injustamente breve.
 
No topo está o decano, Nobel 1972, Kenneth Arrow (Stanford), imediatamente seguido por dois colegas que também foram ganhadores do mais cobiçado prêmio de economia, em 2000 e 2002: James Heckman (Chicago) e o psicólogo Daniel Kahneman (Princeton). Há mais um de Chicago, o jurista republicano Cass Sunstein, e mais dois de Princeton: o microeconomista Angus Deaton e o especialista em economia do trabalho Alan B. Krueger. Essa bancada acadêmica americana é completada por outros três criativos pensadores: o cientista político Robert Putnam (Harvard), o economista ambiental Geoffrey Heal (Columbia), e uma das mais influentes economistas feministas: Nancy Folbre (Massachussets). Com o presidente Stiglitz (Columbia), e seu conselheiro Sen (Harvard), são onze, dos quais cinco prêmios Nobel.
 
Entre os acadêmicos europeus, três britânicos e sete franceses. No trio, o já célebre Sir Nicholas Stern (LSE) ladeia o especialista em desigualdade e pobreza Anthony B. Atkinson (Oxford) e o expoente da chamada economia da felicidade Andrew J. Oswald (Warwick). Com base em Paris, o coordenador geral Jean-Paul Fitoussi - presidente do OFCE, o Centro de Pesquisas Econômicas da "Sciences-Po" (Instituto de Estudos Políticos) - pinçou dessa mesma organização o macroeconomista Philippe Weil e o politécnico Claude Henry, autoridade no binômio inovação/sustentabilidade.
 
 A principal incógnita reside em saber se avanços das ciências sociais aplicadas já permitem, a imprescindível superação do Produto Interno Bruto 
 
Mas é claro que também fazem parte o econometrista Roger Guesnerie (Collège de France) e o anterior economista-chefe do Banco Mundial François Bourguignon, respectivamente presidente e diretor da nova "PSE", "Paris School of Economics". Muito mais notáveis do que Marc Fleurbaey (Paris-5) e Jean Gadrey (Lille), mesmo que o primeiro seja forte referência em ética social e justiça distributiva, e o segundo o autor de ótimo livro sobre novos indicadores de riqueza (traduzido pela Editora Senac em 2006). Muito ligado às entidades da sociedade civil que se empenham em reconsiderar a riqueza, Gadrey chegou a propor boicote à iniciativa de Sarkozy. Atitude que perdeu o sentido quando o próprio Stiglitz o convidou a ser um dos membros da comissão.
 
Para fechar o panorama acadêmico falta mencionar a única "penetra" nesse triângulo EUA-FR-UK: a também economista feminista Bina Agarwal (Delhi). Hoje mais dedicada ao estudo da ação coletiva para a conservação ambiental, foi quem colocou a contribuição teórica de Amartya Sen em perspectiva de gênero. E participa da rede internacional que procura operacionalizar o intraduzível "capability approach".
 
Além desses 22 professores, há representantes de quatro importantes organizações internacionais. Pela OCDE, o chefe da área estatística, Enrico Giovannini; pelo Pnud, o número um Kemal Dervis; pela Unctad, o diretor Heiner Plassbeck; e pelo Banco Mundial, o economista-chefe e vice-presidente Justin Lin. Bem próximo desse quarteto está o representante da organização nacional que garantirá e zelará pelo bom funcionamento dos trabalhos: Jean-Philippe Cotis, diretor geral do INSEE, instituto que detém na França a responsabilidade oficial pelas estatísticas e estudos econômicos.
 
O segundo fato promissor foi o resultado da primeira reunião, no final de abril, na qual foram discutidos dois "surveys" da produção científica pertinente. A comissão passou a ser organizada em três grupos de trabalho, cujo enunciado dos temas não poderia ser mais significativo: um vai esmiuçar "os clássicos problemas do PIB", outro vai focar "desenvolvimento sustentável e meio ambiente", e o terceiro se concentrará na questão da "qualidade de vida". Até julho deverá estar pronto um primeiro documento sobre a problemática ("issue paper", que sintetizará as contribuições desses três grupos, tarefa a cargo de sete técnicos emprestados pela OCDE, OFCE e INSEE, staff dirigido pelo tarimbado estatístico Jean-Étienne Chapron, relator-geral da Comissão).
 
Não menos importante é o terceiro sinal: a Comissão está empenhada em trabalhar com máxima transparência e a buscar intenso diálogo público. Para tanto, ainda em junho será lançado um portal que oferecerá um esquema interativo que facilite comunicação direta com os mais interessados, além de disponibilizar documentos de trabalho.
 
Como o relatório final está previsto para junho de 2009, os próximos doze meses serão especialmente favoráveis a projetos e ações de revisão das obsoletas convenções para a medição da riqueza, uma noção aparentemente simples, mas cuja ambigüidade gera muita confusão. Além disso, sistemas de medição embutem forte inércia institucional, mantendo sempre muito atraso em relação aos avanços científicos. Os egípcios, por exemplo, só corrigiram o calendário em 238 A.C., praticamente quatro milênios depois de terem calculado uma duração do ano solar de 365 dias e um quarto. Com certeza será bem mais rápida a mudança das atuais medidas da riqueza, embora nada autorize supor que as recomendações da Comissão Stiglitz venham a ser facilmente assimiladas pela ONU, ou por outros atores cruciais, como o FMI. O processo mal começou, pois a principal incógnita do problema reside em saber se avanços das ciências sociais aplicadas já permitem, de fato, a imprescindível superação do PIB, assim como desse seu precaríssimo desdobramento que é o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).
 
José Eli da Veiga - professor titular do departamento de economia da FEA-USP e pesquisador associado do "Capability & Sustainability Centre" da Universidade de Cambridge, com apoio da Fapesp.

Viver na cidade é melhor para o ambiente do que no campo


Responda rápido: quem polui mais, quem mora em São Paulo ou quem vive no campo? Se você culpou o paulistano, está enganado. Um levantamento feito nos Estados Unidos revela que morar em áreas urbanas faz você poluir menos do que viver na zona rural.

Parece estranho, mas faz sentido. Pessoas que vivem em cidades poluem individualmente menos que pessoas que vivem no campo por diversos fatores. Em primeiro lugar, porque as coisas nas áreas urbanas ficam menos distantes umas das outras. Em segundo, porque o transporte coletivo é mais usado, o que diminui a emissão de poluentes per capita. Enquanto em uma grande cidade o uso de metrô e ônibus é mais difundido, em uma menor as pessoas precisam usar mais o carro, e por distâncias maiores. Além disso, na zona rural o uso de carvão e lenha para obtenção de energia é muito maior.

“O desenvolvimento mais compactado das cidades, com paredes divididas e menores distâncias, pode ajudar a reduzir as emissões de carbono por pessoa ou por dólar gasto”, explicou ao G1 um dos autores do estudo, Frank Southworth.

O levantamento feito nos Estados Unidos pela Brookings Institution mostrou que cada morador das 100 maiores áreas metropolitanas do país consome, em média, 2,47 toneladas de dióxido de carbono para obtenção de energia anualmente. Isso é 14% menos que a média geral do país, de 2,87 toneladas.

No total, essas cidades maiores ainda são mais poluentes que as outras, pois respondem por 56% do total de emissões. A diferença se mantém apenas na média per capita, porque essas áreas concentram dois terços da população americana.

Southworth acredita que a mesma diferença deve também ser encontrada mesmo em países como o Brasil, que não dependem tanto da queima de carvão para a obtenção de energia. “Não importa a fonte de energia. Principalmente porque quanto menor e mais isolada é a cidade, mais difícil é fazer as fontes de energia limpa valerem a pena, porque o mercado é muito restrito”, disse ele. (Fonte: G1
Pautas verdes são propostas para biocombustíveis

Por Stephen Leahy*

O mundo começa a discutir regras ambientais para a produção de combustíveis agrícolas.

Bonn, 2 de junho (Terramérica) - A adoção de pautas internacionais para a produção sustentável de biocombustíveis surgiu como uma opção polêmica na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, realizada em Bonn, na Alemanha, em maio. As propostas, ainda vagas, indicam que se “pode promover a produção, conversão, o uso e comércio sustentáveis de biocombustíveis” e giram em torno de reduzir “incentivos perversos”, como os subsídios europeus e norte-americanos.

Os também chamados agrocombustíveis, refinados de cultivos como milho, cana-de-açúcar e soja, suportam uma onda de criticas dos que os consideram culpados pela atual carestia alimentar. Também são acusados de agravar a destruição de ecossistemas, ao empurrar outras produções agropecuárias ao corte e colonização de matas virgens. Precisamente, frear a crescente onda de extinções de flora e fauna foi um dos propósitos da reunião de Bonn.

“O Convênio das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica pode contribuir garantindo que os biocombustíveis sejam ecologicamente sustentáveis”, disse ao Terramérica Jochen Flasbarth, do Ministério de Meio Ambiente da Alemanha, um dos delegados presentes na IX Conferência das Partes desse tratado, realizada entre 19 e 20 de maio. Alguns países nem mesmo quiseram discutir o assunto durante o encontro, mas o presidente do Convênio, o ministro alemão do Meio Ambiente, Sigmar Gabriel, insistiu nisso. Em lugar de esperar pelo desenvolvimento de critérios de sustentabilidade, algumas organizações ambientalistas insistem em acabar com os subsídios, as exonerações de impostos e as cotas de consumo de biocombustíveis.

Tais medidas são necessárias para garantir que a produção de agrocombustiveis não ameace as florestas e sua diversidade em países como Brasil e Indonésia, disse Eric Darier, ativista do Greenpeace em Bonn. Outros afirmam que as monoculturas em grande escala nunca podem ser sustentáveis. “Em 33 anos de produção de etanol a partir da cana, o Brasil nunca se preocupou em estabelecer padrões de sustentabilidade”, disse Camila Moreno, da ong brasileira Terra de Direitos.

Na III Conferência Nacional de Meio Ambiente realizada no começo de maio em Brasília, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, garantiu que, para expandir a produção de biocombustíveis, o Brasil possui 50 milhões de hectares de terras cultiváveis “em repouso”, portanto, não seria necessário “cortar árvore em parte alguma do país”. Os biocombustíveis chegarão a ocupar 5% de todas as suas terras agrícolas até o final da década.

Um novo informe do capítulo brasileiro do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) reconhece o impacto benéfico da indústria dos biocombustíveis no Brasil, alerta que pode ameaçar as florestas e que o etanol de cana tem pouco impacto na produção alimentar e não está causando desmatamento na Amazônia. Tanto Moreno como Christian Hey, do alemão Conselho Assessor sobre Meio Ambiente, discordam do WWF. Os biocombustíveis precisam de grandes extensões, e não é possível evitar que sejam afetadas terras agrícolas, de pastagens e florestais.

“Os padrões e as certificações não podem impedir que o agronegócio leve os pequenos agricultores a utilizar terras de pastagem e florestas”, disse Stefan Bringezu, diretor do alemão Instituto Wuppertal para o Clima, o Meio Ambiente e a Energia. Os países ricos querem combustíveis menos poluentes para seus automóveis. Os países pobres querem exportações de alto valor e depender menos das caras importações de petróleo. O Convênio tenta conciliar estas demandas.

Em 2007, a União Européia estabeleceu a meta obrigatória de 10% de biocombustivel até 2020, como parte de seus esforços para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. Esse compromisso impulsionou a produção em muitos países em desenvolvimento. Agora, a União Européia recebe fortes pressões para abandonar essa meta, sobretudo sob o argumento de que os biocombustíveis são em parte responsáveis pela crise alimentar.

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tentou sair do ponto morto afirmando aos ministros de Meio Ambiente de quase cem nações que “o Convênio deve estabelecer pautas para evitar as conseqüências negativas da energia de biomassa”. O primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, único chefe de governo presente na 27ª Conferência, nem mesmo se referiu aos biocombustíveis em seu discurso. O Canadá, um produtor marginal, e o Brasil, líder mundial em etanol, rejeitam a idéia de padrões obrigatórios e se mostram favoráveis a esquemas voluntários.

A delegação brasileira disse que todas as formas de energia deveriam estar sujeitas a normas de sustentabilidade. O Brasil está muito mais preocupado com o acesso ao mercado, e o Canadá parece agir em nome dos Estados Unidos, o grande ausente, alegam os ambientalistas. Os Estados Unidos não são parte do Convênio e dividem com o Brasil a liderança na produção de etanol. Entretanto, seu programa tem metas muito ambiciosas e se baseia em fortes subsídios ao milho e em barreiras alfandegárias ao combustível importado.

* O autor é correspondente da IPS.

LINKS

+Brasil quer dominar mercado de etanol
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=esp&idnews=65&olt=10

+Uma aposta no negócio limpo
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=esp&idnews=110&olt=17

+Boom dos biocombustíveis dispara temores
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=esp&idnews=348&olt=53

+Convênio sobre Diversidade Biológica, em inglês
http://www.cbd.int/

+Greenpeace Alemanha, em alemão
http://www.greenpeace.de/

+Terra de Direitos, em português
http://www.terradedireitos.org.br/

+WWF Brasil, em português
http://www.wwf.org.br/

Crédito de imagem: Photo Stock
Legenda: A cana brasileira no olho do furacão.



Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

FREIO AO DESMATAMENTO

Reunidos em Bonn até o final da semana, ministros de Meio Ambiente de 60 países, incluindo Carlos Minc pelo Brasil, comprometeram-se em deter o desmatamento até 2020. Ainda que o cumprimento da meta tenda a se mostrar difícil na prática, a decisão é animadora, pois traz um alento para a humanidade, particularmente para a parcela que se preocupa com uma exploração racional do meio ambiente, capaz de gerar resultados favoráveis hoje para as comunidades sem comprometer o amanhã. Por isso, é importante que a decisão seja devidamente explicitada, permitindo um acompanhamento meticuloso ao longo dos próximos anos.

Como explicaram representantes da ONG Fundo Mundial da Natureza (WWW, na sigla em inglês) ao final do encontro na Alemanha, a iniciativa anunciada por representantes dos países presentes ao encontro tem o mérito de contribuir para a biodiversidade, além de deter a mudança climática e garantir o bem-estar da população. A biodiversidade, de fato, é uma questão-chave para a redução da pobreza, para o aprovisionamento de água potável e para o fim dos conflitos ligados à utilização e à apropriação de recursos renováveis, assim como para a saúde.

O Brasil, que tem parcela importante da Amazônia sob sua responsabilidade, precisa se empenhar para garantir o cumprimento da meta, buscando soluções que possam preservar essa riqueza de interesse mundial com o mínimo de conflito. Diante dos múltiplos interesses que envolve, essa é uma área na qual as ações efetivas valem mais do que os discursos.

Certamente, é difícil imaginar a possibilidade de desmatamento zero, defendida na Alemanha por líderes da área ambiental. O consenso de dirigentes mundiais em torno de um objetivo comum nesta área, porém, constitui uma largada importante, a partir da qual cada país precisará se esforçar claramente para transformar em realidade de agora em diante.
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